Estou cansada
E você, está cansado de quê?
Tem hora que cansa.
Por mais que reconheça todas as vitórias até aqui, confesso que estou cansada.
Minha saga começou no último 13 de outubro (rosa) de 2025, quando fui pega de surpresa em um exame de rotina com um tal de “carcinoma de grau 3 subtipo her2+” que pedia intervenção imediata com 6 ciclos de quimioterapia a cada 21 dias.
Entre a confirmação do tumor e a primeira pancada (ops, quimio) foram 10 dias.
Nesses longos (e tão rápidos) 10 dias vivi jornadas intensas que foram desde “como vou dar a notícia para minha filha?”, passando pelo “preciso providenciar uma peruca!” (comprei e nunca usei, caso saiba de alguém que precise, me chama na DM), com uma orgulhosa “não vou parar meu doutorado” e, claro, “vou seguir trabalhando, sim”. Mas também teve o clássico “será que vou morrer disso?”, lógico.
Havia acabado de acertar minha demissão na Mandic (já era uma conversa minha com a chefia havia meses), mas, lógico, a saída foi dramática porque eu saí da posição com um diagnóstico embaixo do braço. Que fase.
Desde então, costumo dizer que, enquanto um “mundo se abriu” (me refiro a olhar para a vida com mais gratidão, honrar minha família, abraçar cada amigo como se fosse a última vez, fazer longos diálogos em silêncio com minha cachorrinha de madrugada, etc etc), um outro (cruel) “mundo se fechou”: ao comunicar por aqui que estava com câncer, portas se fecharam. Outras se abriram. Algumas ficaram em suspenso, esperando meu comando para abrir. Outras ficaram numa promessa vazia, tipo quando Silvio Santos dizia “vamos abrir as portas da esperança” e eu morria de pena do sujeito ao ver a porta vazia, coitado. Outras portas pareciam interessantes, mas logo mostraram parecer aquele personagem da novela cujo bordão era “corre que é cilada, Bino”, ou até senso de oportunidade dado meu momento delicado.

Mas, como assim, “senso de oportunidade”? Ora, apesar da notícia e do duro tratamento, não perdi a mania de dizer “preciso de trabalho, preciso trabalhar para passar o tempo”. Era mentira. Não precisava de trabalho, precisava na verdade cuidar de mim (e, lógico, precisava fazer dinheiro, afinal, apesar de falar francês e ser muito fina e elegante, nasci mulher periférica em um mundinho muito do chinfrim e neoliberal).
Inacreditáveis 5 meses se passaram desde a confirmação do diagnóstico até cirurgia para a retirada do quadrante da mama por onde o danado do tumor havia passado. A quimioterapia derreteu o câncer (viva a ciência). Mas também derreteu meus cabelos, minha paciência e minha fé em algumas pessoas (essa parte nem foi tão ruim, confesso).
No meio do caminho, para aliviar a frustração do tempo que teimava em passar rápido e devagar, fazia minhas aulas de boxe, suava na academia, dei algumas aulas (de peruca rs), fiz ensaio fotográfico, virei instagramer de câncer de mama, fingia normalidade enquanto vivia noites no banheiro entre enjoos e diarreia.
Apesar disso, encarei uma viagem para a Europa planejada antes do furacão her2+ (autorizada pelo médico, não sou a única maluca aqui) exatamente um dia depois da 4a quimioterapia, vivendo pela primeira vez o réveillon dentro de um avião em algum pontinho em cima do Atlântico. Parecia até a Adriana dos velhos tempos da década de 1990, meio chapada e mal conectando as palavras, com a diferença que minha brisa tinha a ver com as 7 horas de infusão quimioterápica - e não com aquele vinho barato dos tempos de acampamento em Paranapiacaba (eu era feliz e sabia disso - e você que viveu a adolescência nessa época também).
E pronto. Eis-me aqui quase 6 meses depois daquela fatídica segunda-feira 13. Sigo emputecida (é essa palavra mesmo) porque ainda faltam 15 sessões de radioterapia e mais 6 ciclos de infusão com o duplo bloqueio (que acabarão em julho).
Se você chegou até aqui, pode pensar “puxa, mas não era para ela estar feliz, afinal, o tumor derreteu e ela está temporariamente fora de perigo?!”. Pois é, mas sou filha de Deus, cheia de qualidades e mais ainda de defeitos e, por essa razão, apesar de grata, tenho meus dias de mal humor e cansaço profundo (a quimioterapia e a menopausa induzida explicam e me justificam). Mas tudo isso se ameniza diante da tela branca e um teclado para bater os dedinhos e chamar de meu.
E você? Está cansado de quê?
Caso precise de alguém com um fino “mal bom humor” e queira pagar bem por isso, conte comigo para escrever sua história também ;-)